Ciência e Evidência

Corrente russa, aussie, TENS e FES: o que a evidência diz sobre cada corrente

A fisiologia da contração induzida não é a mesma da contração voluntária, e boa parte do que se repete sobre correntes em kHz não sobrevive aos estudos. Um guia honesto de parâmetros.

Escrito por Equipe Bioset, Equipe editorial

Publicado em 10 de agosto de 20266 min de leitura

O que a eletroestimulação faz com o músculo?

A corrente elétrica não contrai a fibra muscular diretamente: ela despolariza os axônios motores que passam sob os eletrodos, e são eles que disparam a contração. Isso gera um recrutamento não seletivo, espacialmente fixo e sincronizado, bem diferente da contração voluntária, que ativa unidades motoras pequenas primeiro e reveza fibras para adiar a fadiga.

Essa diferença explica as duas marcas registradas da eletroestimulação neuromuscular: ela consegue ativar fibras rápidas mesmo em intensidades baixas, e fadiga o músculo mais cedo do que o exercício voluntário equivalente. Nenhuma das duas é defeito; são características para dosar no protocolo.

Aqui vale desmontar um mito de apostila: a ideia de "recrutamento invertido", com fibras rápidas sempre primeiro, é uma simplificação. A leitura atual da literatura, consolidada por Bickel, Gregory e Dean, é de recrutamento aleatório, ditado pela posição dos ramos axonais no campo elétrico, não pelo limiar da fibra.

Quais são os parâmetros de cada corrente?

Cada família de corrente é uma combinação de frequência portadora, formato de burst e modulação. A tabela abaixo resume os valores clássicos usados em estética e reabilitação.

CorrentePortadoraBurstModulaçãoUso típico
Russa (Kots)2,5 kHz10 ms, ciclo 50%50 HzFortalecimento, protocolo clássico 10 s ON / 50 s OFF
Aussie1 kHz4 ms50 HzFortalecimento com mais conforto por ciclo
FES / pulsada de baixa frequênciapulsos de 200 a 500 µsnão se aplica30 a 80 HzReabilitação funcional e fortalecimento
TENSpulsos curtosnão se aplicavariávelAnalgesia (não é corrente de fortalecimento)
Parâmetros típicos das correntes excitomotoras

A corrente em kHz é mesmo superior?

A evidência diz que não. O trabalho de referência de Alex Ward, publicado no Physical Therapy, mostrou que a impedância da pele depende da duração de fase do estímulo, não da frequência portadora em si, e que o torque máximo foi obtido com portadora de 1 kHz, não de 2,5 kHz. Os parâmetros da russa tradicional são, nas palavras da própria literatura, subótimos.

Comparações diretas reforçam o quadro. Dantas e colaboradores mediram torques altos e similares com corrente aussie e corrente pulsada, com a russa produzindo menos. Uma scoping review de 2018 concluiu que correntes alternadas em kHz geram força igual ou menor, desconforto parecido e mais fadiga que a pulsada de baixa frequência.

A mensagem prática não é "abandone a russa": é que a variável que mais importa não é a sigla da corrente, e sim a intensidade. Os ganhos de força e massa aparecem quando a contração induzida chega perto do máximo tolerado e progride sessão a sessão. Corrente confortável demais, parada no nível sensorial, não remodela músculo.

Eletroestimulação reduz gordura localizada?

Não é o que a evidência mostra. No estudo de Porcari, 8 semanas de estimulação seguindo as instruções do fabricante não mudaram força, composição corporal nem aparência física em programas passivos de baixa intensidade. Em estimulação abdominal diária, a força abdominal aumentou sem qualquer mudança de circunferência ou de gordura.

Eletroestimulação é ferramenta de músculo e de analgesia, não de lipólise. Para dor, aliás, o racional é outro: o TENS trabalha com liberação de endorfinas e interrupção da sinalização dolorosa, função central do BIOSTIM TENS E FES da Bioset. Já o BIOSTIM MULTI reúne TENS, FES, interferencial e russa numa única plataforma, cobrindo do controle de dor ao fortalecimento com os parâmetros da tabela acima.

E a contração supramáxima por campo eletromagnético?

Existe uma terceira via, que não passa corrente pela pele: a eletroestimulação por indução magnética (HIFEM). Um campo eletromagnético de alta intensidade induz despolarização em profundidade e produz contrações supramáximas, acima do que o paciente atingiria voluntariamente, mimetizando potenciais de ação do sistema nervoso central.

No portfólio Bioset, essa tecnologia é o Kratos Force, plataforma de campo eletromagnético voltada a tonificação e fortalecimento. Por dispensar eletrodos e atingir intensidades de contração inalcançáveis por corrente transcutânea confortável, ocupa um espaço próprio nos protocolos de modelagem corporal, complementar às correntes clássicas, não substituto delas.

O que é consenso

  • NMES fortalece e hipertrofia quando aplicada em intensidade alta e progressiva
  • O recrutamento induzido é não seletivo e sincronizado, com fadiga precoce
  • Correntes em kHz moduladas em burst são opção de conforto, não de superioridade

Promissor, mas incerto

  • Superioridade da aussie sobre a russa (amostras pequenas, resultados mistos)
  • Combinações de burst e portadora ideais por objetivo
  • Sinergia de eletroestimulação com radiofrequência no contorno corporal

O que não afirmar

  • Que eletroestimulação queima gordura localizada ou substitui exercício
  • Que a russa "recruta primeiro as fibras rápidas" como fato estabelecido
  • Que 2,5 kHz penetra mais por ser uma frequência maior

Qualquer corrente excitomotora bem dosada funciona; a evidência aponta leve vantagem de conforto para bursts curtos (aussie) e resultado dependente sobretudo da intensidade atingida e da progressão semanal.

Não. TENS é corrente de analgesia, com parâmetros sensoriais. Para resposta motora, use FES, russa ou aussie em intensidade motora franca.

Os protocolos de fortalecimento estudados usam 2 a 3 sessões semanais por grupo muscular, com o clássico 10 s de contração e 50 s de repouso na russa, ajustando o ciclo conforme a fadiga.

Sim, desde que com objetivos claros por sessão (analgesia, fortalecimento, modelagem) e com registro de intensidade em cada modalidade.

Referências

  1. Ward AR, 2009. Electrical stimulation using kilohertz-frequency alternating current. Physical Therapy, 89(2):181-190
  2. Bickel CS, Gregory CM, Dean JC, 2011. Motor unit recruitment during neuromuscular electrical stimulation: a critical appraisal. European Journal of Applied Physiology
  3. Maffiuletti NA et al., 2011. Physiological and methodological considerations for the use of NMES. European Journal of Applied Physiology
  4. Dantas LO et al., 2015. Comparison between the effects of 4 different electrical stimulation current waveforms. Muscle & Nerve
  5. Vaz MA, Frasson VB, 2018. Low-frequency pulsed current versus kilohertz-frequency alternating current: scoping review. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation
  6. Porcari JP et al., 2002. Effects of electrical muscle stimulation on body composition, muscle strength, and physical appearance. Effects of electrical muscle stimulation on body composition, muscle strength, and physical appearance
  7. Gondin J et al., 2011. Neuromuscular electrical stimulation training induces atypical adaptations. Journal of Applied Physiology
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